Cesumar - Centro Universitário de Maringá

Jornal Matéria Prima

 
  • Última Edição: #483 | 28/06/2018 - Ano XIX
 
Cidade | Edição #368 - 08/08/2013

Nem só coveiros têm o cemitério para trabalhar

Em meio aos túmulos, um pequeno grupo de trabalhadores conta a rotina de quem esbarra na morte todos os dias

Pedro Real
Aluno de Jornalismo

Comentários
 
O limpador Anselmo esfrega cerca de 100 túmulos por dia (Foto: Pedro Real)

O limpador Anselmo esfrega cerca de 100 túmulos por dia (Foto: Pedro Real)

Segurando um balde na mão direita e apoiando uma vassoura, um rodo e um esfregão sobre o ombro esquerdo, Anselmo Xavier, 74, caminha sorridente entre os jazigos do Cemitério Municipal de Maringá. Xavier trabalha na limpeza de túmulos há 24 anos e diz ser apaixonado pelo que faz. “Isso aqui não é trabalho para mim”, afirma. Mesmo assim, o limpador relata que a rotina de trabalho é pesada.
Xavier esfrega cerca de cem túmulos por dia. “Eu lavo hoje [quarta-feira] e sábado já tem que lavar de novo. Eu não saio daqui”, brinca. Ao lado dele, uma mulher enxágua ininterruptamente um túmulo. “É a minha filha”, indica, apontando para ela. Segundo Xavier, a profissão está no sangue. “Eu, minha esposa, minha filha e meu neto trabalhamos aqui”, diz, apontado para cada um.
Antes de ser limpador de túmulos, Xavier trabalhou em uma sacaria. Porém, afirma ser esse seu melhor emprego. “Aqui é o lugar mais feliz para se trabalhar. Na rua tem perigo. No cemitério não”, brinca o limpador. Apesar de todo o esforço, ele diz escutar reclamações com frequência. “São 18 mil sepulturas. Então, sempre aparece alguém dizendo que o túmulo está sujo”, aponta.

Eu só acho um absurdo que o coveiro receba apenas 20% de insalubridade

É horário de almoço. Perto dali, sentados à mesa do refeitório, dois outros trabalhadores do cemitério estão conversando. Jorge Custódio, 60, trabalha abrindo covas há mais de duas décadas. Ao lado dele, Celso Ribeiro, 43, está no negócio há 11 anos. Há um terceiro coveiro que dorme debruçado sobre a mesa – todos devidamente uniformizados com camisas pólo azuis.
Em média, cada coveiro trabalha em seis túmulos diariamente. Porém, eles afirmam que é impossível contabilizar quantas covas foram abertas durante todos esses anos de trabalho. “Eu sei que perna eu enterrei mais de 70”, diz Custódio, enfaticamente. “Quando amputa, tem que enterrar. Normalmente é por trombose ou diabete”, complementa.

Aqui é o lugar mais feliz para se trabalhar. Na rua tem perigo. No cemitério não

Apesar de todo o estigma da profissão, em 21 anos de trabalho no Cemitério Municipal de Maringá, Ribeiro diz que nunca teve uma experiência sobrenatural. “Isso que o povo fala é tudo onda”, assegura. Por outro lado, por ter participado de vários enterros, ele diz ter muita história para contar.
“Existem famílias que, durante o sepultamento, a mãe diz para o filho: ‘Você passa lá e pega aquela grade de cerveja? A carne já está pronta”, brinca Ribeiro. Já outras pessoas não reagem muito bem. “Teve uma vez que eu nunca vou esquecer. Eu fiquei com a marca das unhas de uma menina nas costas”, complementa. Além disso, cada pessoa lida de uma forma com a morte.
“Sepultar um muçulmano é diferente. Eles não fecham o caixão. A tampa fica embaixo ou de lado”, afirma Custódio. “Nesse dia, passou uma mulher bem na hora. Ela botou a mão na cabeça e começou a gritar: ‘Nossa, com 64 anos de vida eu nunca vi uma coisa dessas’”, relembra, gargalhando o coveiro. Segundo os trabalhadores do cemitério, cada cultura tem ritual próprio. O importante é respeitar as tradições.
“Os japoneses colocam uma fruta ou um doce. Tem gente que coloca um pertence da pessoa, um óculos, um baralho que ela gostava de jogar”, garante o coveiro Custódio. “Já o católico reza para o defunto e joga água benta para benzer o túmulo.” Enquanto conversam, em pé, ao lado da mesa, um ex-coveiro acompanha toda a conversa.
William Chiulo, 25, trabalhou no cemitério durante um ano e meio. “Agora estou na carbonização, mas quero muito voltar”, confessa. De acordo com Chiulo, que também é estudante universitário, apesar do que muitos pensam, o ambiente é um lugar tranquilo para trabalhar. “Eu só acho um absurdo que o coveiro receba apenas 20% de insalubridade”, indaga o jovem. A insalubridade é um acréscimo salarial garantido por lei para o trabalhador que labora em condições de risco.

São 18 mil sepulturas. Então, sempre aparece alguém dizendo que o túmulo está sujo

Jorge Custódio, o funcionário mais experiente, afirma ser cauteloso. “Eu sempre uso luva, depois lavo bem as mãos e as roupas”, afirma. Além disso, existem outros equipamentos de proteção. “Se um morto chega com mais de dez dias tem que usar máscara”, aconselha. Apesar de ser considerada por muitos como uma profissão indesejada, é necessário reconhecer a importância desses que, em vida, cuidam da morte.

Discussão e comentários »

Não há comentários | Deixe seu comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

* Copie a Senha gerada. *

* Digite ou cole senha aqui. *

37.073 Spam Comments Blocked so far by Spam Free Wordpress

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

sobre o autor

Notícias

 

Calendário

agosto 2013
S T Q Q S S D
« jul   set »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  

galeria de fotos

Mario Quintana Mark Twain Chico Buarque

enquete

Você gostou das edições do JMP deste primeiro semestre?

Ver Resultados

Loading ... Loading ...
 

Jornal Matéria Prima é produzido por alunos do curso de Jornalismo do Centro Universitário Cesumar - UniCesumar - na disciplina Técnica de Reportagem.

 

Publicado com WordPress / Laboratório de Notícias

Proibida a reprodução sem autorização do autor ou da Unicesumar

©2011-2018 Jornal Matéria Prima. Todos os Direitos Reservados.