Cidade | Edição #361 - 31/05/2013

Ônibus carrega histórias e lição de vida

Entre encontros e despedidas, usuários da linha 323 compartilham rotina de trabalho e sonhos para futuro

Andreia Melero
Aluna de Jornalismo

“Bom dia”. Os passageiros da linha 323 Bertioga, da TCCC (Transporte Coletivo Cidade Canção), que fazem o trajeto para o bairro Aeroporto, Zona 8, região sul de Maringá, já iniciam o dia assim, recebendo um sonoro e ecoante cumprimento do motorista. Apesar do aperto, risadas, e alguns sinais de animação, o que não falta pela manhã em cada percurso, de uma hora e dez minutos, é o ar de mais uma batalha se iniciando, tanto contra o sono matinal, como contra as dificuldades do dia a dia. Uniformes escolares se misturam a visuais comportados e despojados. Em meio ao aroma adocicado de perfume, os jovens, idosos  e crianças  compartilham o início do dia e disputam espaço para conter a preguiça ou, simplesmente, preparar-se para mais uma jornada.

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323 Bertioga: A rota sempre segue com animação e cordialidade (Foto: Andreia Melero)

José Roberto Ferrarezi, 54, motorista da TCCC por longos sete anos, conta que já viu desde comemorações a brigas. “Eu já vi de quase tudo. Até bomba já soltaram no ônibus, mas o que mais incomoda são os ‘nóia’. Mas eu ‘tô de boa’. Tenho muitos amigos, dou muita risada e mesmo cansado, volto para casa feliz todo dia. Depois de criar dois filhos e ter minha casinha, só falta meu sonhado barco e um rio bem grande para eu pescar”, completa. Chamado pelo nome pela maioria dos passageiros, ele afirma que “as amizades feitas, tornam seu fardo diário mais leve e gratificante”.

No cair da tarde, apesar do “boa tarde” de Ferrarezi continuar ecoando, o vai e vem de passageiros diminui, e é nesse período que a vendedora Selma de Oliveira, 42, moradora do bairro Aeroporto, aventura-se desbravando a rota do 323. “Machuquei meu braço em um acidente de moto e hoje, pela primeira vez, estou andando de ônibus. Tenho que conhecer o caminho porque logo volto a trabalhar e depois do acidente, vou aposentar minha moto por alguns meses”, relata a “marinheira de primeira viagem”.

Entre olhares perdidos pela janela e semblantes extenuados, eles reaparecem: os guerreiros da manhã retornam as casas, para o tão merecido descanso

Já ao anoitecer a faxineira Nilza Farias Martins, 49, conta a história dela: “Todos os dias acordo às 5 da manhã, levo meu filho ao colégio e vou trabalhar. Volto só de noite, cansada, mas colocando a fofoca em dia com minhas amigas.”

No final do percurso e com a noite já impondo passagem, o “boa noite” do motorista marca o ambiente. Entre olhares perdidos pela janela e semblantes extenuados, eles reaparecem: os guerreiros da manhã retornam as casas, para o tão merecido descanso.

E assim se vai outro dia, com mais  vidas se repetindo, mais quilômetros rodados e novas histórias contadas.


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