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Segurança | Edição #359 - 02/05/2013

“Não fazemos jornalismo como deve ser feito”

Alvo recente de atentado, o repórter André Almenara conversou com o JMP para contar experiências e riscos da profissão

Amanda Oliveira
Aluna de Jornalismo

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Há cerca de um mês a casa dos pais de André Almenara, 33, repórter do programa Maringá Urgente, exibido pela Rede Massa (SBT), em Maringá, foi atingida por pelo menos 15 disparos de arma de fogo. A polícia investiga o caso, que não foi o primeiro contra a emissora. Apesar do susto, Almenara, que já concedeu diversas entrevistas sobre o episódio, não se diz intimidado. O repórter, que se mostrou acessível ao conceder esta entrevista ao Jornal Matéria Prima, começou a cursar jornalismo, mas não concluiu o curso. O sonho de infância era trabalhar em meios de comunicação, principalmente em rádio, onde deu início à carreira. Em 2005, foi chamado para trabalhar no programa Maringá Urgente, onde está até hoje. Almenara tem uma conta no site Youtube.com, onde posta vídeos das reportagens que faz. Na entrevista, ele conta que tem consciência dos perigos da profissão, principalmente na área em que atua, o jornalismo investigativo, que, às vezes, é, segundo afirma,  invasivo demais. Porém, diz com convicção que tudo o que faz é “por amor à profissão”.

Acho que é uma tremenda covardia o que eles fizeram. Se é alguma coisa contra minha pessoa, que viessem atrás de mim

Por qual motivo você teria sofrido o atentado?
Trabalho há mais de sete anos na televisão e a gente tem contato direto com os criminosos, seja o criminoso de baixa periculosidade e também o de alta, aquele que comete um furto e também o que comete um assassinato. E isso todos os dias, praticamente todos os dias entrevisto alguém que é preso pela polícia. As investigações apontam para reportagens que fiz nos últimos 40 dias. Mas não descartamos outras possibilidades. Eu não moro mais com meus pais. No dia em que efetuaram os tiros, achavam que eu estava lá. Eles não conseguiram esse êxito, mas acabaram deixando meus pais preocupados.

E isso te intimidou de alguma forma, a ponto de você pensar em “controlar” mais as reportagens?
Não, não, isso não me intimidou. Fico mais preocupado com eles [os pais] do que comigo. Acho que é uma tremenda covardia o que eles fizeram. Se é alguma coisa contra minha pessoa, que viessem atrás de mim. Claro que não quero que aconteça isso também, mas, veja bem, eles foram à casa dos meus pais. Fiquei afastado durante dois dias, mas já estou trabalhando, já estou exercendo a minha profissão normalmente, inclusive acompanhando as investigações da Polícia Civil. Só vou ficar tranquilo quando as pessoas responsáveis forem presas, punidas, mas medo eu não tenho. Estou recebendo muito apoio de pessoas que gostam de mim.

 Não poderei, de repente, exercer meu trabalho da forma como estava fazendo. Já tive algumas mudanças quanto a isso

Você acredita, também, que esses atentados se dão por conta da cobertura excessivamente expositora que vocês, repórteres policiais, fazem, muitas vezes mostrando o rosto e a casa dos acusados?
É, exatamente. Não só a empresa na qual trabalho, mas outros canais de televisão também mostram, às vezes, a ocorrência no “calor” da situação, antes mesmo de a polícia chegar. Claro que é um risco tremendo, mas a gente faz com dedicação e amor. Sabemos que é perigoso, mas queremos fazer o melhor. Eu já mostrei muitos criminosos sendo presos dentro da própria casa. Temos o maior cuidado para mostrar as pessoas, porque a gente não quer fazer injustiças com outras que não estão envolvidas. Mas, pode ser que tenha ligação, sim, com alguma reportagem que fiz, alguém que não gostou e talvez a família quis se vingar, de uma forma ou de outra.

É realmente necessária essa exposição tão próxima e apressada dos fatos?
Necessária, na verdade, não é, porque não fazemos o jornalismo como deve ser feito, na regra, como os jornalistas formados aprendem. A gente aprendeu dessa forma. E como aconteceu isso comigo, claro que vou ter de ser mais cauteloso. Não poderei, de repente, exercer meu trabalho da forma como estava fazendo. Já tive algumas mudanças quanto a isso. A emissora na qual trabalho já conversou a respeito. Inclusive, teve um fato que aconteceu comigo na virada de 2008 para 2009, se não me engano. Houve um assassinato aqui em Maringá e o irmão da vítima estava armado. Cheguei junto com o Corpo de Bombeiros e a polícia ainda não estava no local. O irmão apontou o revólver na minha direção e disse “se você filmar qualquer coisa aqui na minha casa, eu vou dar tiro”. Depois, eu passei tudo para a polícia, mas, infelizmente, o suspeito não foi localizado.

 Quando você vê o criminoso antes da polícia, você se envolve na investigação? Como é a relação de vocês com a polícia?
Nesses casos temos que passar a informação, dizer quem é a pessoa. Mas isso tudo fica em sigilo entre a equipe de reportagem e a polícia. Passamos a informação e o serviço de inteligência investiga. A gente não pode, de maneira alguma, atrapalhar a polícia. Já ajudamos muito a polícia a desvendar crimes em Maringá, divulgando imagens de câmera de segurança na televisão, por exemplo. Se a polícia acha ruim? A polícia não aconselha. Mas é o nosso trabalho. Está no nosso sangue, aprendemos isso na rua, com raça. Aprendi muito na TV, tanto que, depois, quis fazer faculdade, mas acabou que ficou complicado por causa dos horários. É bom ter formação jornalística, ter diploma, mas acho que a reportagem policial nunca vai acabar.

Recentemente, uma pesquisa do Comitê para a Proteção dos Jornalistas mostrou o Brasil entre os 10 piores países em relação à segurança e liberdade de imprensa. O que você acha que deve ser feito para diminuir esse risco?
Nós, da classe da comunicação, não podemos ficar reféns dessas pessoas. Você tem de noticiar, falar, realmente, o que acontece no País, na nossa cidade. Calados, não vamos informar a população. Precisamos de mais segurança, não só para a classe da comunicação, entenda isso. Mas temos de ter mais proteção por parte da polícia, seja qual caso for.

Almenara e o carro da imprensa

Almenara à frente do carro usado nas reportagens de rua (Foto: Eduardo Santos)

Discussão e comentários »

2 comentários | Deixe seu comentário

O problema está no qualificar. Jornalismo é noticiar, contar os fatos, nunca usar adjetivo qualificativo.

Lucas Henrique Figueredo disse:

Jornalismo investigativo? O que este senhor faz e os outros que seguem a mesma linha fazem passa longe do jornalismo investigativo. Quando mostraram detalhes da atuação de alguma quadrilha? Quantos atos de corrupção conseguiram registrar? Quantos flagrantes de desrespeitos a leis? O que fazem é uma versão televisiva do boletim de ocorrência. Em muitas vezes o texto usado no ar é o mesmo que está no BO. Zero de criatividade e imparcialidade. O que se vê é apenas a versão da polícia, na maioria dos casos.

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