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Saúde | Edição #351 - 06/11/2012

Traumas podem unir pela dor, diz especialista

A psicóloga Carla Carvalho entende que as tragédias servem para aproximar as pessoas em torno de uma mesma causa

Eliza Bondezan
Aluna de Jornalismo

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Família de Arthur sente a perda: “Ele era nosso mundinho” (Arquivo de família)

Os crimes cometidos contra crianças sempre são vistos como hediondos. E há muitos exemplos. Alguns mais famosos, como o assassinato covarde, em 2008, da pequena Isabela Nardoni. O pai da menina e a madrasta foram condenados pelo crime. Também a morte do menino João Hélio, de 6 anos, arrastado por assaltantes por 7 km no subúrbio do Rio de Janeiro, em 2007. Outros, muitas vezes nem se tornam conhecidos. Tragédias como essas abalam qualquer tipo de estrutura familiar, porém, especialistas defendem que esses traumas podem servir para unir mais os familiares em torno de uma causa.

…existem casos em que os familiares ficam mais unidos para enfrentar a dor

 

 

Em Maringá, o mais recente caso que mexeu com a opinião pública foi o do menino Arthur Salomão Silva, de apenas 3 anos. A criança estava no carro, em direção a uma loja do Jardim Alvorada, zona norte de Maringá, na companhia da avó e da tia. Assim que a tia do menino estacionou o carro, uma dupla sobre uma motocicleta começou a atirar contra Silvio Luiz Dias Fogaça, 25 anos, que também pilotava uma moto. Um dos tiros acertou a cabeça do garoto. A família Salomão Silva não sabia como lidar com a tragédia. A dor da perda para todos os familiares foi intensa, como conta a tia do menino, Jéssima Salomão. “Nós perdemos o chão, não sabíamos o que fazer. Ele era nosso mundinho.”

Ajuda profissional para superar o drama
Famílias que foram desestruturadas por tragédias envolvendo crianças precisam de atendimento específico
 PRISCILA DIAS
Aluna de Jornalismo

Mãe de menina estuprada se arrepende por não ter buscado ajuda (Foto: Priscila Dias)

A tia de Arthur, Jéssica Salomão, 20, diz que a saudade do menino é grande, mas ela e a família sabem que a vida não pode parar, embora o anseio por justiça ainda seja uma busca constante. Para a assistente social Jane Maria Mortean Chicarelle, independentemente da tragédia e da forma como aconteceu o crime, a ajuda deve ser realizada, primeiramente, sem críticas, e a família deve encontrar espaço para expressar tudo sobre o caso. “É necessário que o profissional compreenda a situação e a conjuntura para futuramente tecer críticas.”

A costureira C.D.G.S., 50, que prefere não se identificar, também viveu uma tragédia. Na época, a filha dela, de apenas 8 anos, foi estuprada pelo vizinho que frequentemente visitava a família e. Com vergonha, não procurou ajuda. “Levei a menina [filha] para fazer o exame e lá confirmaram [a violência sexual].” A família da vítima não buscou apoio para superar o que aconteceu e até hoje não sabe lidar com o problema que ainda interfere na vida da filha, agora adolescente. “Depois disso ela começou a se vestir com roupas mais masculinas e tem medo de homem. Tenho certeza que esse comportamento dela tem a ver com o que aconteceu. Se a gente tivesse procurado a ajuda certa, talvez fosse diferente”, desabafa.

De acordo com Jane Maria Mortean Chicarelle, além de um assistente social, o trabalho com as famílias é feito em parceria com um psicólogo. “Primeiramente fazemos um estudo de caso, sempre respaldados pelo Código de Ética profissional e pelo ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente], e a partir daí damos orientações para a família.” Para a assistente social, histórias trágicas como essas não acontecem somente pelo fato de as crianças serem frágeis e um alvo fácil, mas por toda conjuntura social e econômica em que estão inseridos. “Isso forma um conjunto de fatores que podem ou não contribuir para a efetivação das tragédias.”

“Quando acontece algum tipo de tragédia ou perda numa família ela se desestrutura na maioria das vezes, mas existem casos em que os familiares ficam mais unidos para enfrentar a dor”, explica a psicóloga especialista em traumas, Carla Carvalho. Em casos como o do Arthur busca-se justiça, diz ela. E foi isso o que a família do menino fez. Os envolvidos foram detidos.

Além da prisão, os pais queriam fazer mais e, em setembro passado, organizaram uma passeata contra a violência em Maringá. Cerca de 500 pessoas compareceram. Os participantes carregaram fotos do menino e cartazes com mensagens para o pequeno Arthur.

Casos de tragédias contra crianças não ficam apenas na memória da família da vítima, mas também causa comoção social. Outros casos que ficaram na lembrança dos maringaenses foram a brutalidade cometida contra a menina Beatriz Pacheco, em Sarandi (distante 10 km), no mês de junho e o atropelamento da menina Fabíula Regina Coálio, em 2003.

“A dor da perda é indescritível para os pais dessas crianças, mas existe também o trauma deixado para as pessoas que nem sequer conheciam as vítimas. Só de pensar numa criança indefesa sendo brutalizada deixa qualquer pessoa decente arrepiada”, diz a psicóloga Carla.

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