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Literatura | Edição #349 - 09/10/2012

Pensamentos secretos em uma sala de espera

Em um lugar estranho, ela aguarda ansiosa pra ver alguém; não poderia imaginar, contudo, que ele não é quem deveria ser

Taís Nakakura
Aluna de Jornalismo

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Ela chegou com um olhar aflito, atento a tudo o que estava à sua volta. Nunca estivera em um lugar como aquele. Estava frio e o vento soprava tão alto que a fazia arrepiar-se. Lugar estranho, desconhecido. No meio do nada e ao lado de um cemitério. Aquilo tudo a deixava ainda mais inquieta. Olhou o relógio: meio-dia. Com aquele céu escuro – típico de tempestades – mais parecia meia-noite. Melhor entrar logo de uma vez.

Era meio-dia, mas, com aquele céu, mais parecia meia-noite (Foto: Taís Nakakura)

Adentrou a sala de espera. Observou todos aqueles rostos estranhos, que agora voltavam seus olhares para ela. Baixou a cabeça, procurou por alguém que pudesse atendê-la, mas só encontrou uma campainha. Tocou-a. O som ecoava por toda parte, abafado apenas pela forte ventania que continuava lá fora. De lá de dentro veio uma mulher de aparência simpática. Pediu para que ela aguardasse até ser chamada.

Sentou-se em um velho banco desconfortável – aparentemente padrão em um lugar como aquele. Olhou mais uma vez para aqueles rostos estranhos, que agora já estavam distraídos com a conversa. Olhou também para os comunicados, os avisos de desaparecimento de pessoas, as orações pregadas na parede. Parede velha, prédio velho. Tudo naquele lugar lembrava morte, exceto aquelas pessoas que a acompanhavam na sala de espera.

Saiu de seus pensamentos por um instante e se concentrou para entender o que aqueles desconhecidos diziam uns para os outros. A conversa, tão descontraída, nem de longe parecia ser apropriada ao local. Uma mulher, de trinta e poucos anos, fora agredida pelo marido e recebia conselhos de um senhor tagarela, com “79 anos de experiência”, como ele mesmo dizia. O idoso sugeria que a mulher devesse envenenar o agressor, colocando altas doses de remédio na bebida do marido.

As pessoas riam e se olhavam, parecendo pensar que aquele homem era meio louco. Achavam graça na loucura dele e ignoravam a honestidade com que ele aconselhava a mulher agredida. Ela, porém, nem sequer sorriu. A única reação dela foi arregalar os olhos. Espantou-se com a naturalidade com que aquele homem falava sobre um assassinato planejado e decidiu voltar a seus pensamentos. Eram ideias que estavam, na verdade, relacionados com a conversa toda daquela sala de espera.

Um a um, os integrantes daquele lugar mórbido foram sendo chamados. Por fim, restou apenas ela. Olhou o relógio: 13h30. Uma hora e meia havia se passado e ela ali, esperando. A angústia a corroia, mas isso era bom. Não era adequado que ela demonstrasse felicidade naquela ocasião. O motivo da aflição, porém, não poderia transparecer. O ar parecia pesado e cada vez mais frio. O vento, agora mais forte que nunca, parecia sussurrar-lhe: fuja!

Assustou-se quando ouviu uma voz, humana dessa vez, chamar-lhe. Assentiu com a cabeça, levantou-se e se dirigiu a uma sala onde a morte ainda pairava no ar… O homem que a chamou perguntou-lhe se ela estava bem e se ele poderia retirar o lençol que cobria o corpo deitado na cama. Ela assentiu novamente. Olhava atenta enquanto o homem retirava – como se estivesse em câmera lenta – o que cobria aquele cadáver.

- Senhora, este é o seu marido? – perguntou ele.

A imagem a fez sentir tontura, dor de cabeça e ela esteve a ponto de vomitar ali mesmo, naquela sala. Não, não podia ser. Ela não conseguia pronunciar uma única palavra. Em seus olhos, via-se refletido o medo, sentia-se impotente, derrotada. O que faria agora? Só queria sair dali, fugir, como o vento sussurrara a ela. E o fez. Sem dizer nada ao homem, simplesmente saiu. Ao deixar o lugar, olhou mais uma vez para o prédio. “Instituto Médico Legal” era o que estava escrito. Respirou fundo enquanto andava de volta para casa e, já bem longe daquele lugar, sussurrou para o vento:

- Não, não é o meu marido.

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