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Cidade | Edição #349 - 09/10/2012

“Estupro de criança marca”

Aldo Pesarini, diretor do Instituto Médico Legal de Maringá, relata as condições do órgão e conta como é a profissão

Taís Nakakura
Aluna de Jornalismo

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O médico legista Aldo Pesarini é o diretor do IML há 21 anos (Foto: Taís Nakakura)

O diretor do Instituto Médico Legal (IML) de Maringá, Aldo Pesarini, 61, já foi cirurgião cardíaco e até cursou quatro anos de engenharia elétrica. Natural de Curitiba encontrou-se com a medicina legal em um curso que fez em Fortaleza (Ceará). Pesarini está nessa área há 25 anos, dos quais 21 no cargo de diretor do IML. Não é para qualquer um.

Em entrevista ao Jornal Matéria Prima, Aldo Pesarini revela que para ser legista é necessário criar uma “barreira emocional”, que limita o envolvimento pessoal com casos da profissão. Contou também como é o trabalho de um médico legal e as condições do prédio do IML Maringá. Confira trechos dessa entrevista

Instituto Médico Legal:
prédio velho e prédio novo
Problemas de estrutura do IML Maringá podem ser resolvidos; novo prédio deve ficar pronto até abril de 2013
TAÍS NAKAKURA
Aluna de Jornalismo

Atual prédio do IML de Maringá está em fase de tombamento (Foto: Taís Nakakura)

O relatório divulgado em agosto pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE), após inspeção nas 18 sedes do Instituto Médico Legal (IML) do Paraná, revelou que a situação do órgão é caótica. A sede de Maringá ficou entre as piores do estado, com falhas graves – muitas relacionadas à estrutura do prédio.

Projetado para ser uma capela mortuária, o imóvel em que o IML de Maringá está instalado atualmente é precário. Entre os vários problemas, há os de estrutura e de localização. Com a construção do novo prédio do Instituto Médico Legal no município, espera-se que essas falhas sejam resolvidas. As obras começaram em julho deste ano e devem terminar até abril do ano que vem.
A previsão para a entrega do novo prédio, que inicialmente era de um ano, foi reduzida. Mesmo assim, o médico legista Aldo Pesarini, diretor do IML de Maringá, atenta para o fato de que a mudança não depende somente do término da obra. “A [construtora] Tuiuti está indo muito rápido, acho que vai ficar pronto em menos de um ano. Mas para a gente poder ‘morar’ lá depende também do mobiliário, de um monte de coisa”, diz Pesarini.
Já a edificação antiga, que ainda abriga o Instituto Médico Legal, está em processo de tombamento. “Eu quero crer que vá virar um museu, algo assim”, diz Pesarini sobre o futuro do prédio. O projeto do imóvel foi feito pelo arquiteto curitibano Luty Vicente Kasprowicz, em meados de 1970.

Obras do novo prédio do Instituto Médico Legal já começaram (Foto: Taís Nakakura)

Por que o senhor escolheu essa área da medicina?
Não escolhi, foi escolhida para mim.

Como assim?
Foi contingência do serviço militar. Eu não tinha feito serviço militar. Era voluntário e estava exercendo a profissão médica. O chefe, na época, mandou aqueles que estavam com o serviço pendente para Fortaleza [Ceará], no quartel, fazer o curso de medicina legal. E eu era um deles.

Na sua opinião, que características são necessárias para quem quer trabalhar como legista?
Primeiro: disposição. Segundo: ter condições psicológicas para o desempenho da função e um amplo conhecimento das demais ciências. Porque medicina legal não é só medicina. Eu tenho que entender de engenharia, química, biofísica, todas as outras matérias, para eu ver um corpo e definir se foi envenenamento, enforcamento, asfixia ou hemorragia. Enfim, eu tenho que conhecer.

O senhor diria que o trabalho de um médico legista está mais para a área médica ou para a área policial?
É um misto, mas está mais para medicina. É a medicina aplicada à polícia judiciária. Uma ciência que presta auxílio à Justiça. A Justiça é que vai fazer algumas perguntas. Eles conhecem a área do direito e a área criminal, mas não conhecem medicina. É por isso que se utilizam da medicina legal e da perícia, ou criminalística. Como o perito tem maior noção de fotografia, levantamento, colocar gesso no chão para ver pegada, cuida de tudo que circunda o crime. Nós [legistas] não temos esse tempo, cuidamos do exame do corpo da vítima.

O senhor acha que há um bom trabalho de equipe entre a criminalística e o IML em Maringá?
Não temos dificuldade. Quando a gente tem dificuldade, liga para eles e quando eles têm, ligam para a gente. Tem situações em que eu chego aqui [no IML] e o corpo não “fala”. Se eu tenho dificuldade de interpretar alguma coisa, ligo e pergunto como estava o corpo, o que acharam nas redondezas.

O senhor disse ao jornal “O Diário do Norte do Paraná” que o prédio do Instituto Médico Legal de Maringá não tem solução por ter sido construído para outros fins. O que muda com a construção do novo prédio?
Primeiro: é uma localização adequada para um IML, aqui é inadequada. Segundo: o prédio está sendo construído para ser um IML, aqui foi construído para ser uma capela.

E o que vai acontecer com o prédio antigo?
Esse prédio está em processo de tombamento. Tem mais dois prédios parecidos com esse, que foram desenhados por um arquiteto maringaense [Luty Kasprowicz, que nasceu em Curitiba, mas que mora em Maringá atualmente]. Eu quero crer que vá virar um museu, algo assim.

O Tribunal de Contas do Estado (TCE) apontou várias irregularidades desse IML…
O Tribunal de Contas não. Nós não tivemos problemas com verba. A Vigilância Sanitária encontrou 42 itens para serem corrigidos, dos quais apenas 20 tinham condições de correção. Os outros 22 não têm. É a própria estrutura do prédio, localização, ventilação… que não tem como mudar. O prédio está em fase de tombamento, eu não posso mexer na arquitetura dele. E não há como sair daqui e ir para um prédio alugado. Houve

Não estamos tendo mais legistas. O interesse pela especialidade vem caindo gradativamente

a possibilidade de irmos para a UEM [Universidade Estadual de Maringá], mas lá não eram 42 itens que a Vigilância Sanitária iria apontar, iria ser uns cem itens. Era inviável.

A ideia de lidar com mortos pode causar estranheza em algumas pessoas. O senhor já sentiu medo em relação a isso?
Medo, não. Eu fico entristecido quando cuido de crianças e jovens que têm a vida toda pela frente. Crianças principalmente, que não têm capacidade de se defender e são vítimas, verdadeiramente vítimas. Mas a gente acaba criando uma “barreira emocional”, você não deixa a emoção atrapalhar a parte profissional. É preciso fazer o laudo independentemente da emoção. A gente fica angustiado, mas tem que fazer.

Teve algum caso que te marcou?
Estupro de criança marca. O que me marcou foi o da menina Márcia Constantino [Maringá, morta em 2007] e o da menina Beatriz [Sarandi, morta este ano]. Marcaram porque houve lesão vulvo-vaginal intensa, eu não conseguia identificar onde começava a vulva, onde começava o reto. E ainda ateou fogo, o [Natanael] Búfalo [réu confesso e acusado do homicídio de Márcia Constantino].

Tem algo mais que o senhor gostaria de falar?
Que não estamos tendo mais legistas. O interesse pela especialidade vem caindo gradativamente. Primeiro, pelo meio em que se trabalha e, segundo, pela remuneração, pelo suporte financeiro.

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Muito bacana a entrevista, Taís. É legal quando conhecemos o outro lado da moeda, e curioso quando aprendemos sobre uma profissão tão ímpar, ao meu ver. Parabéns!

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