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Literatura | Edição #345 - 07/08/2012

Uma (des)esperada conversa ao celular

Após encontro frustrado, casal enfrenta alguns problemas comuns a quem tenta se comunicar pelo telefone

Taís Nakakura
Aluna de Jornalismo

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A forte vibração do celular dela acordou-a e, logo, o identificador de chamadas acusava quem esperava do outro lado da linha. Lá estava ele a ligar no dia seguinte, mesmo depois de um encontro um tanto quanto desagradável como o que ocorrera ontem. Ela, por sua vez, deixou a chamada cair na caixa de mensagens. Não que a moça tivesse toda a intenção de ser mal-educada, é que o único sinal que havia no celular dela logo desapareceu. “Sem serviço” era o que o celular indicava.

O conforto de se falar ao celular exige alguns sacrifícios (Foto: Taís Nakakura)

Lá foi ela, andando com o celular pela casa como se estivesse com um daqueles detectores de minas terrestres, mas o objetivo era encontrar um “pauzinho” de torre. Quando encontrou o raríssimo sinal, que a operadora – gentilmente – cedia, ficou imóvel e retornou – meio a contragosto – a ligação, sempre tomando o cuidado para que a “alta” qualidade do serviço de telefonia não fosse afetada. Esforços em vão. A “torre” dele já era e a ligação foi encaminhada para caixa de mensagens.

Mas, como ter muita paciência e persistência é indispensável para quem quer se comunicar pelo aparelho móvel, ela não desistiu. Tentou de novo e, na quarta vez, foi atendida. Depois de conseguir finalmente ligar, começou a parte difícil: entender e ser entendida. Afinal, o conforto de poder falar de qualquer localidade com alguém distante exige sacrifícios, como manter extrema concentração no que o outro diz. Sem isso, é quase impossível entender os trechos de frases soltas que se ouve.

Ela começou a conversa com um semissorriso no rosto enquanto tampava a orelha que não estava encostada no telefone, para ouvir melhor o que ele dizia. Aos poucos, a conversa se tornou mais difícil, com sucessivos “o quê?” “hã?” “você tá me ouvindo, agora?”, entre outras expressões conhecidas do vocabulário básico de quem fala ao celular.

Assim, a conversa dos dois parecia brincadeira de “telefone sem fio” – o que era dito nada tinha a ver com o que era entendido

Enquanto ela falava ao mesmo tempo em que subia em uma cadeira para que seu aparelho captasse melhor o sinal, ele apertava os olhos para ouvir o que parecia “ontem foi tão legal, a gente devia fazer isso outra vez”. Isso foi o que pareceu, mas parte da frase da moça fora devorada durante o percurso. A versão original era o oposto do que chegou aos ouvidos do rapaz: “acho que ontem não foi tão legal, não sei se a gente devia fazer isso outra vez”.

Assim, a conversa dos dois parecia brincadeira de “telefone sem fio” – o que era dito nada tinha a ver com o que era entendido. Antes de chegar aos ouvidos do rapaz, todas as palavras que continham uma negação, eram filtradas e jogadas fora. Já o que ele dizia, parecia à moça sempre o contrário do que ela dissera. Quando ela dizia que os dois não tinham muito em comum, ele respondia que rolara mesmo uma química entre eles.

Aos ouvidos dele, ela parecia ter gostado tanto da desastrosa noite anterior, que ele não tinha coragem de admitir para a moça que tinha sido um erro, e preferiu marcar um segundo encontro. Combinar o lugar e o horário foi quase impossível, não pela indisponibilidade de agenda, mas pelos ruídos que se intrometiam no meio da conversa. Ele, no único canto do banheiro com “bom sinal”, e ela, ainda em cima da cadeira, terminaram a conversa com a certeza de um próximo encontro ruim. Ao menos um entenderá mais facilmente o que o outro quer dizer.

Discussão e comentários »

Um comentário | Deixe seu comentário

Loide Caetano disse:

Se esta matéria tivesse sido publicada antes, poderia pensar que ela teria inspirado a Presidente com releção à nova lei sobre antenas de celulares.

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