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Literatura | Edição #343 - 26/06/2012

Respostas entre a vida e a morte

Como um jovem aprendiz conheceu, muito além do que imaginava, o significado das palavras "limite" e "confiança"

Altieres Rohr
Colaborador do Jornal Matéria Prima

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Aprender é pensar e experimentar. (Foto: Bugeiko/Arquivo particular)

Era o primeiro dia do aluno no dojô da escola de artes marciais. Entrou já cansado, mas cheio de vontade. Alguns minutos depois, seu corpo falha, forçando-o a se retirar do tatame rapidamente. Não querendo desistir, buscou conselhos. E aconselhado foi a fazer um exame médico.

Nada sério. O coração está bom, explica o doutor. “Você precisa é de mais exercícios físicos regulares para melhorar sua atividade cardiorrespiratória.” Munido dessas palavras, o recém-chegado aluno — kôhai, como chamam –, volta ao dojô, sabendo que precisa ficar atento a seus limites.

Treino após treino, esforça-se um pouco mais. E mais um pouco.

Mas um determinado treino estava especialmente cansativo. O jovem, sabendo disso, tenta ficar no tatame, como um guerreiro que não abandona o campo de batalha. Mas o inimigo é ele próprio.

Quase no final do treino, o professor o chama para uma atividade. O aluno deve derrubá-lo no corpo-a-corpo, sem golpes.

Já cansado, o kôhai tenta o seu melhor. Agarra uma das pernas do professor, que não ataca, e sim pula feito um saci-pererê pelo tatame, mantendo dignamente o equilíbrio. Esgotando as forças do adversário, o instrutor, um renshi, apenas dá um pequeno empurrão para que seu aprendiz caia ao chão.

“Tachi. Mouichido”, diz o professor. O aluno novo já sabia o significado dessas palavras. “De pé. Mais uma vez”. “Só pode ser uma brincadeira”, pensou, exausto e ciente de que já havia passado do seu limite. O coração estava a mil, a respiração dificultada.

A cena se repetiu, mas dessa vez não houve contra-ataque. As forças do aluno o abandonaram, mas o instrutor queria continuar. “Força”, disse. “Não tem”, foi a resposta que ouviu. E ainda um pedido para que parasse. “Força”, disse mais uma vez.

O rapaz caiu ao chão.

Gritou aflito, sem ar, coração disparado. “Respire, respire”, dizia o renshi. Pediu que o jovem se levantasse, mas a resposta foi negativa. O aluno só ficava mais preocupado. Nunca havia se sentido tão mal pelo cansaço dos treinos. Questionou-se o que iria acontecer se o diagnóstico do médico não estivesse correto. Pediu para se retirar do tatame, dizendo que não queria sujá-lo, porque sentia náuseas. O mestre negou o pedido, deixando-o ainda mais aflito.

Não há maneira de substituir a vivência de experiências através do nosso corpo. Ele é o contato que temos com todos os limites. Ele é o limite, a embalagem, o território da mente, como a palavra é a embalagem de uma ideia

E nenhum sinal de melhora.

O professor então chama os demais alunos, que formam um círculo. “Passem energia”, solicita, e eles assim o fazem. Outro kôhai agarra a mão do aluno caído, cujos olhos fechados não veem a cena.

O jovem volta a ter cor, a respiração fica mais leve. De um minuto para outro, tudo aparentemente mudou. Parecia mágica.

Ainda de olhos fechados, o aluno, com suas costas escoradas no joelho de um colega, sente algo em sua testa. É uma tenugui. Um pano branco amarrado na testa que, para os praticantes, simboliza que o aluno passou por alguma mudança após o contato com a arte marcial. Dispensava explicações. O aluno sabia qual obstáculo vencera, pois já respirava sem dificuldade.

O aluno da história é também o autor deste texto, praticante de uma arte marcial chamada Bugeiko.

Não há maneira de substituir a vivência de experiências através do nosso corpo. Ele é o contato que temos com todos os limites. Ele é o limite, a embalagem, o território da mente, como a palavra é a embalagem de uma ideia. É pelo corpo que experimentamos a vida. Mas nós nunca vamos experimentar a morte. No entanto, quanto mais nos distanciarmos da vida, mais vamos compreendê-la. É a busca de uma visão panorâmica.

É quando tomamos essa distância e saímos dos limites seguros que nossa confiança é realmente colocada à prova. A lição a ser absorvida fica em cada pensamento infundado que, nos momentos difíceis, passam pela mente.

Trata-se da guerra travada contra nós mesmos, contra nossa própria vaidade, contra nossos defeitos e, claro, contra a nossa covardia. Não importa quantas vezes se vença o outro se não for possível vencer a si mesmo. E “vencer”, nesse caso, é “conhecer”. Pois este jovem aluno não sabia que seu limite estava muito além do que imaginava.

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sobre o autor

Altieres Rohr é jornalista formado pelo Cesumar. É editor do site Linha Defensiva e autor do blog Ira Racional.

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